Aconteceu em Los Angeles/EUA
Por Arthur Vieira, com informações da ABC News, The Guardian, IMDb e Los Angeles Times



Um homem até então derrotado pela vida e um garoto que precisava se afirmar e vencer seus medos. Histórias emocionantes que têm identificação forte com o público. Tudo isso embalado por trilhas sonoras marcantes e planos criados para aumentarem a emoção de cada cena. Estou falando de Rocky e Karatê Kid. Estou falando de John G. Avildsen.


John Avildsen morreu em Los Angeles, nesta sexta-feira, aos 81 anos vítima de câncer no pâncreas. A informação foi confirmada por agências internacionais próximo à meia-noite. 

Nascido em 1935 em Illinois, o filho de um fabricante de ferramentas estudou na Universidade de Nova York e chegou a servir dois anos no Exército norte americano.

Depois de trabalhar como diretor assistente em filmes dos cineastas Arthur Penn e Otto Preminger, ele lançou Joe em 1970. O filme fala sobre a história de dois amigos que lutam contra hippies traficantes de drogas que conseguiram atrair a filha de um deles. O filme chamou a atenção da crítica devido ao seu forte final – inclusive, segundo a imprensa norte americana, após 10 semanas do lançamento do filme, um fato muito parecido com o que retratado nas telas ocorreu em Detroid. O filme foi estrelado por Peter Boyle, um ator até então desconhecido, e foi a estreia de Susan Sarandon nas telas. Custando 106 mil dólares, o filme arrecadou mais de 19 milhões, conseguindo ser o 13º na lista dos mais rentáveis naquele ano. O roteirista Norman Wexler recebeu uma indicação ao Oscar como Melhor Roteiro Original.


Três anos depois, outro sucesso: Save the Tiger. Estrelado por Jack Lemmon, conta a história de Harry Stoner, um executivo à beira da falência e que procura uma forma de fugir da realidade após uma série de maus acontecimentos. O roteiro foi adaptado por Steve Shagan de seu romance homônimo. O filme teve baixo orçamento (1 milhão de dólares, segundo o IMDb) e, apesar de ter dado lucro, não foi um sucesso de bilheteria como seu antecessor – mesmo custando quase 10 vezes mais. Entretanto, em termos de premiação, rendeu o primeiro Oscar para uma obra dirigida por Avildsen: o protagonista Jack Lemmon venceu como melhor ator. Sem falar no prêmio Writers Guild of America Award pelo melhor roteiro original dado a Steve Shagan e as indicações a duas outras modalidades do Oscar – Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original e três indicações ao Globo de Ouro: Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Ator Coajuvante.


Seguindo um ritmo interessante, novamente três anos depois, surge o maior de seus sucessos: Rocky! A produção por si só já tem uma história impressionante: um ator desconhecido oferece um roteiro para os produtores Robert Chartoff e Irwin Winkler, mas é recusado por não ser uma história interessante para aquele momento. Mas eles perceberam o talento do jovem e o deixaram trazer um novo projeto. Ao assistir uma luta vencida por Chuck Wepner contra o ídolo mundial do boxe Muhammad Ali, Sylvester Stallone recebeu a inspiração para escrever a história do lutador de um bairro da Filadélfia que é descoberto e desafiado pelo campeão mundial a uma luta durante as comemorações do bicentenário da Idependência dos Estados Unidos.

Os produtores adoraram a história e propuseram que Stallone cedesse o roteiro em troca de um papel no filme. Como Sly gostaria de ser o protagonista – o que desagradava os produtores – chegou a receber propostas de até 300 mil dólares pelo roteiro e ficar fora do filme. Vale lembrar que Stallone havia perdido tudo e inclusive vendera seu cão Butkus dias antes para se manter – ele recusou a oferta e conseguiu fazer o filme.

Avildsen foi convidado pelo próprio Stallone para ser o diretor de Rocky. O diretor, em depoimento presente na edição especial de 25 anos do filme, conta que nada conhecia sobre boxe até então. Entretanto, ao assistir filmes que abordavam o gênero, percebeu que eles pareciam “falsos” – e vindo de histórias que abordavam drogas e falências morais, o diretor não podia fazer algo que não estivesse fiel à realidade. E aí surgiu a mágica.

John Avildsen teve a ideia de coreografar toda a cena da luta entre Rocky e Apollo Creed. Após uma tarde de ensaios livres, onde nada se encaixava, sugeriu a Stallone que passasse alguns dias criando um “roteiro” de movimentos: esquerda, direita, esquerda, esquerda. Quando Sly trouxe as três páginas de movimentos, os atores passaram algumas semanas ensaiando até tudo ficar perfeito. Assim nasceu uma das cenas mais emocionantes da história do esporte no cinema.




Nesta entrevista, Avildsen ainda relembra que o que mais lhe chamou atenção ao aceitar o trabalho em Rockyfoi a cena presente na terceira página do roteiro, onde Rocky chega em casa e conversa com as tartarugas Cuff e Link (aqui batizadas como Zas e Traz). Ideia de Avildsen, surgiu a parte em que Stallone reflete em frente ao espelho ao ver fotos suas quando criança. Era a oportunidade de ver o que a vida havia reservado àquele garoto de origem italiana.

Ao lado de nomes como Garrett Brown e Bill Conti, a obra que desbancou Taxi Driver e De Niro no Oscar de 1976 foi realizada. Brown ficou conhecido depois de Rocky como o criador da steadicam, a câmera que consegue ser movimentada sem perda de imagem, e Bill reforçou a fama de mestre de trilhas sonoras fortes e envolventes das décadas de 1970 e 1980.

Segundo o site do jornal inglês The Guardian, Rockycustou 1,08 milhão de dólares e rendeu 200 vezes este valor em sua exibição no mundo inteiro. Foi indicado a 10 modalidades do Oscar e venceu 3: melhor filme, melhor edição e melhor diretor. Foi a glória maior de John G. Avildsen.




Após as sequências de 1979, 1982 e 1985, dirigidas por Stallone, Avildsen retornou para dirigir Rocky V, que seria o último filme da franquia e que mostraria a morte de Rocky numa luta de rua após perder toda a sua fortuna e voltar para a Filadélfia.

Para conceber o derradeiro filme, os sets originais foram recriados, como a academia e a loja de animais onde Adrian trabalhava. A estética foi adaptada para os anos 1990, com RAP e jovens mais agressivos que quinze anos antes. O bairro apesar de bem pobre em 1976 aparenta mais abandonado depois de um tempo.

Os efeitos de vídeo casam com o visual imposto pela linguagem do videoclipe, introduzida no início dos anos 1990 após a ascensão na década anterior. Uma outra revelação do diretor nos extras do DVD é contar que como a equipe não era a mesma do primeiro filme, teve problemas com a iluminação, já que o profissional contratado criticara a sua decisão de usar pouca iluminação ensaiada. Segundo o diretor, o tal profissional disse que aquilo viraria um documentário – era mais ou menos a intenção de Avildsen, já que ele sempre flertou com a realidade.




Rocky V não foi um sucesso de público e em alguns países saiu direto para VHS. Rocky, como se sabe, não morreu no filme, pois os produtores resolveram não matar sua galinha dos ovos de ouro. O personagem ainda retornaria em Rocky Balboa (2006) e em Creed (2015).

Em 1984, uma nova luta:

Karate Kid, segundo a ABC News, foi uma outra grande surpresa no cinema. A história de um jovem que precisava aprender a se defender de zoações de colegas encontra no mestre interpretado por Noryuki “Pat” Morita a ajuda para superar suas dificuldades. O filme atraiu milhões de jovens em todo o mundo e levou Morita a indicação de Melhor Ator Coadjuvante no Oscar de 1984.

Foi um estouro de bilheteria. Com o bom recall de Rocky, conseguiu 8 milhões de dólares para rodar o filme que conseguiu render quase 91 milhões de dólares.



Em entrevista dada em 1986, ele falou sobre o sucesso financeiro do filme: “Assim que os produtores viram o negócio que aquilo estava se tornando, eles quiseram fazer de novo (...) Eu estava muito apreensivo. Eu não esperava fazer uma sequência porque isso era muito difícil de ser feito”. Ele acabou repensando e dirigiu tanto a segunda quanto a terceira parte da franquia em 1986 e 1989, respectivamente.



O QUE SIGNIFICAVA SER DIRETOR PARA AVILDSEN?

“Minha esperança como um cineasta é fazer as pessoas sentirem algo diferente sobre alguma coisa quando elas deixassem o cinema”, disse ele ao Los Angeles Times dois anos antes de Rocky.
Foram alguns pequenos filmes dirigidos antes do sucesso de Joe, mas desde sempre Avildsen ficou conhecido pelo seu estilo como diretor e como lidava nos sets de filmagem. Ele ainda dirigiria outras grandes estrelas como Burt Reynolds em W.W. and the Dixie Dancekings, em 1975, Marlon Brando em The Formula (A Fórmula), em 1980, John Belushi em Neighbors (1981) e Morgan Freeman em Lean on Me (1989).

Sobre sua esperança, a associação Directors Guild of America confirmou que ele conseguiu: “Ao longo das décadas, a imagem de vitória, coragem e emoção de suas imagens capturou os corações de muitas gerações de americanos” disse em uma nota.

Em agosto, um documentário dirigido por seu filho Antony Avildsen, John G. Avildsen: King of the Underdogs será lançado juntamente com o relançamento do livro The Films of John G. Avildsen: Rocky, The Karate Kid, and Other Underdogs, escrito por Larry Powell e Tom Garrett.

Sobre seus filmes, o diretor ainda disse em uma outra entrevista em 1992: “Eu não vejo meus filmes seguindo uma linha única – mesmo que muitos deles tratem de um tema parecido. Mas eu acho que pessoas que conseguem superar suas dificuldades são um bom tema. Se fosse o contrário, seria muito deprimente”. 




Obrigado, John!
1935 - 2017